sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ratos De Sal


Meu emprego é uma merda. Não que ser jornalista seja ruim, longe disso, além do mais sempre foi o que eu quis fazer. O real problema é meu trabalho atual, numa porcaria de portal de fofocas. Nossa, como eu odeio isso, só de falar já me dá nojo, mas fazer o que se esse era o único trabalho disponível na época? E hoje ele está particularmente mais chato, pois decidi parar de beber. Não porque “isso não é saudável”, ou qualquer outra besteira politicamente correta, e sim porque uma garrafa de Whisky bom por dia desde os 20 anos, ultimamente vem me dando um prejuízo danado, o que não é pra menos, com o salário risível que me pagam, e como não sou adepto à bebidas ruins, estou caminhando para o meu segundo dia sem beber, o que afeta diretamente meu desempenho em tudo, pois estou horas encarando meu notebook, sem conseguir escrever uma palavra sequer sobre essa celebridade ridícula que tem feito de tudo pra aparecer na mídia, e ser defendido por suas fãs idiotas de 13 anos.
Já é madrugada, e nada além de frustração e fome, então resolvi parar e fazer um lanche pra buscar inspiração. Abro a geladeira, e não tem nada prático pra beliscar. Pego o refrigerante, um copo, e quando vou me servir, vejo sobre a pia um rato branco me encarando. Sei que em cidade grande ratos são normais, mas nunca entrou nenhum em minha casa. Por enquanto não me parece uma grande ameaça, mas ele fica ali parado sobre duas patas me olhado fixamente para onde quer que eu me mova. Chego perto, e rapidamente, coloco meu copo virado pra baixo sobre o animal, prendendo-o antes que me cause algum problema. E para o meu espanto, ele mal se moveu ao ser preso, e continuou me observando com seus olhos vermelhos. Fui até a sala, peguei meu celular pra bater uma foto antes de me livrar do bicho, mas quando voltei, tudo o que vi foi meu copo sobre uma pilha de sal, e nenhum sinal do meu amigo do rabo longo. Acho que estou sendo afetado pelo sono. Simplesmente virei, e regressei à sala para terminar logo a minha matéria. Mas paro quando vejo três ratos em minha escrivaninha, todos iguais ao outro, me fitando. Perplexo, caminhei até eles, que ao perceberem que cheguei perto, correram todos em direções diferentes. Irritado, comecei a perseguir um que passou por baixo de minhas pernas e correu até meu quarto. Chegando lá, nem sinal do maldito de pêlo branco. Ligarei para um dedetizador amanhã, não posso esquecer disso. Quando ia apagar a luz, vi uma movimentação embaixo da coberta que jazia em minha cama, e quando a puxei, mal pude acreditar nos incontáveis ratos que saiam correndo de cima de minha cama. Mas dessa vez não fugiam, eles me atacavam. Dezenas deles subindo em minhas pernas, mordendo meus calcanhares e ferindo minhas canelas. E quando pisava, ou chutava um para longe, estes viravam sal, como se ao morrer, o corpo parasse de existir. Corri novamente para a sala, para me deparar com uma infestação me atacando, agora às centenas. Não podia ficar ali, e tropeçando em todos os móveis possíveis, me dirigi à garagem, sendo perseguindo por estes roedores que pareciam brotar diretamente do inferno. Com tanta pressão, foi difícil abrir a porta do carro, e quando consegui, fui derrubado por uma onda de mais destes demônios, saltando de dentro do meu carro ininterruptamente. Fiquei uns poucos segundos caído, mas foi tempo o suficiente para que eu tivesse boa parte de meu corpo mordiscado. Quando levantei, corri em direção a uma saída. Não tenho certeza de como consegui chegar à rua, creio que a porta dos fundos estava aberta. Por um instante pensei ter escapado desse pesadelo aterrorizante que não parecia ter fim, mas quando esboçava um sorriso vitorioso, vi algo que não me agradou nem um pouco: Mais e mais dessa praga saindo dos bueiros, sem parar e se juntando aos montes que saiam de minha casa. Sem parar pra respirar por um segundo, corri batendo em postes, lixos e carros, mas sem cessar por nada, pois os machucados que eu já tinha ardiam o suficiente para me lembrar o que me aguardava se eu parasse. Mas qual era o plano, correr até que eles desistissem? Não sei, mas não custava tentar. Como imaginei, essas feras não desistem, mas meus pulmões, meu corpo e minha esperança não aguentam mais, e creio eu que não faz sentido eu ficar me torturando, sendo que o final parece inevitavelmente trágico de qualquer forma. É quase de manhã, e eu simplesmente desisti de tentar. Estou aqui numa praça, e já avistei um banco, no qual me sentarei e abraçarei a morte e seu frio hálito, que já me faz tremer antecipadamente. Semimorto me sento neste banco, e percebo que todos os ratos pararam em minha volta, como se esperassem minhas últimas palavras piedosamente, antes de me devorarem até não sobrar mais nada. Eu simplesmente não consigo falar, no meu estado mal dá pra respirar. E tudo o que passa em minha mente agora, é como a sorte me abandonou pra morrer dessa forma, sendo comido vivo pelas criaturas mais asquerosas que eu posso imaginar. Como se estivessem cansadas de esperar, se dirigem às minhas pernas, como um bando de abutres, e não demorou muito até que eu estivesse sendo impiedosamente rasgado por dentes até o couro cabeludo.  A dor ardente foi tanta, que não resisti muitos segundos antes de desmaiar. Agora que recobrei a consciência, não sei ao certo onde estou. Sinto meu corpo pesado, quase como se estivesse todo quebrado. Deve ser assim que nos sentimos quando mortos. Ouço uma voz, mas me recuso a abrir os olhos e descobrir de onde ela vem. Cada vez mais alta e clara, percebo que ela chama meu nome. Levanto com dificuldade minhas pesadas pálpebras, e mal enxergo além de borrões, mas vejo uma silhueta em minha frente, e escuto ela dizendo enquanto minha visão vai se adaptando à tanta luz de uma vez.
- Que bom que acordou Senhor Joaquim. Como está se sentindo hoje? – perguntou o que parecia ser um senhor bem calmo.
- Onde estou? Quem é você? E como conseguiram espantar os malditos ratos? – foi tudo o que eu consegui perguntar com a garganta seca.
- Ratos? Bom, sobre isso conversaremos mais tarde para que me explique melhor. Mas de resto, sou o Dr. Martín, e você está na Santa Casa, o hospital. Te trouxeram aqui em meio a alucinações uns dois dias atrás.
Depois de algumas horas, expliquei ao doutor tudo o que havia me acontecido naquela noite, enquanto ele me explicou como eu havia sido encontrado na praça em condições deploráveis, e que alguns homens haviam me carregado até o hospital. Em relação aos ratos, me diagnosticaram com Delirium Tremens, que é uma forma psicótica de abstinência alcóolica, que causa, dentre muitos outros sintomas, alucinações vívidas, sendo muito comum insetos e animais asquerosos, por muitas vezes ratos brancos. As fraturas e feridas em meu corpo (que ainda ardiam muito), julgaram ter sido uma série de pequenos acidentes que sofri enquanto “fugia” em meu pesadelo criado por minha própria cabeça. Acham que eu pulei alguma janela, ou até mesmo houvesse sido atropelado quando corri pra rua. Passei quase dois dias com febre e delírios, enquanto resmungava sobre a “minha morte solitária”, entre outras baboseiras sem sentido. Tentaram fazer com que eu ficasse internado para algumas sessões de terapia, mas já me sinto estúpido em demasia, e não queria me sentir um louco necessitado também. Como observaram que a crise passou, me aconselharam a ficar longe de bebidas, coisa que prometi como uma criança idiota, para que me liberassem logo. Vim andando para casa com a vergonha estampada na cara e nas roupas doadas que eu estou usando, pois aparentemente, as minhas se encontravam sem condições de uso. Logo que avistei minha casa, percebi a janela da garagem estourada. Pelo visto, não sai pela portas dos fundos em meio ao desespero. Meu carro aberto, e alguns móveis revirados, sendo possível até mesmo traçar uma trajetória de pequenos acidentes leves, previstos pelo doutor. Olhar isso faz com que eu sinta pena de mim mesmo, por ter atingido o fundo do poço. Decidi parar de beber, e talvez procurar outro emprego, me reinventar por completo. Entro na cozinha pra preparar um bom café preto, quando o que vejo na pia me dá calafrios na espinha, e faz com que eu sentisse todas as feridas ainda abertas no meu corpo. Meu copo de vidro, virado de cabeça pra baixo sobre uma pilha de sal. Talvez eu precise mesmo de terapia, ou talvez eu necessite de um exorcista para minha casa. Mas de imediato, eu preciso comprar um bom Whisky envelhecido, para poder dormir em paz essa noite.
Autor: Lucas Miguel

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Mundo Leitor

É um mundo de palavras
rimadas ou não
pensadas, faladas
escondidas no coração

Mundo que é mágico
faz ser real a imaginação
Mundo que sonhei
E cantei numa canção

Mundo que é capaz
de me tirar daqui
Mundo que me dá paz
Pra dentro de mim posso fugir

Neste mundo me encontro
E as palavras me fazem um favor
Aqui eu sempre viverei
Aqui é o meu Mundo Leitor!


Autora: Dâmaris Góes

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